segunda-feira, 9 de abril de 2018

Tapar com a rolha = Até Já


O tempo que passa não passa depressa, o que passa depressa é o tempo que passou.

Basta uma cirurgia decisiva para mudar tudo...e quando a vida chama mais alto por nós temos de lhe dedicar toda a nossa inteireza. A vida é toda ela feita de acasos e só numa situação concreta sabemos o que realmente somos. E neste momento a vida chama por mim!

Tenho vivido a vida o mais intensamente possível, embora à minha maneira. E tenho escrito essa intensidade calmamente. Só assim será ainda mais intensa junto de quem me lê. Mas nunca expressei certezas absolutas, apenas opiniões subjetivas.

Tenho confidenciado, desde novembro/dezembro do ano passado, junto dos meus círculos mais próximos a intenção de terminar com o Facebook e Blog Desarrolhar.
Eis que chegou a hora... e com o seu término o mundo não acabará amanhã! Não querendo enumerar um a um, digo com toda a frontalidade que existe no Facebook e na blogosfera grupos, páginas e blogs com muita qualidade.

Durante os últimos anos o vinho e a escrita foram sendo um hábito e por isso não ouso dizer adeus aos meus hábitos. Isso seria suicídio... como tal, direi a todos vós um ATÉ JÁ.

No entanto, poderei eventualmente ter outro tipo de participação, não com a mesma intensidade, na publicação de "fragmentos" vínicos junto de outros grupos de Facebook que não "o" e "no" Desarrolhar. E também de um modo mais privado e sem exposição pública. Mas só, só quando o tempo assim o permitir...

Pegarei sempre no meu copo e sentar-me-ei no vão de uma porta a beber...

Termino como comecei esta aventura no mundo dos vinhos:

"Desarrolhar: Tirar a rolha de; destampar, abrir.

Um cacho de uvas caído, potencialmente, torna-se, um tipo de vinho.
Torna-se também um poema, essa bebida fascinante, resultado da perfeita união entre homem e a natureza."


Ricardo Soares

sábado, 31 de março de 2018

Casa do Capitão-mor alvarinho reserva 2015


Um dos meus grandes defeitos são os textos longos e algo lamechas...sou assim!

Hoje tive a confirmação. Eu e os acontecimentos (bom vinho, bom almoço e a companhia da minha mulher) temos o poder de me fazer feliz... Eu e os acontecimentos podemos escolher como é que quero estar. Eu tenho apenas este dia, o de hoje, não sei o dia de amanhã, e vou ser feliz enquanto este decorrer. Às vezes, mas só às vezes, para avaliar a nossa felicidade, devemo-nos perguntar por aquilo que nos diverte, pelo desejo que não tem limite e pelo que podemos alcançar. A felicidade consiste em fazer coincidir tudo isso: o divertimento, o desejo e o alcance das coisas.
E este alvarinho Casa do Capitão-mor reserva 2015 eleva-nos ao auge da felicidade.

Toda a minha infância foi passada em Barcelos, eu sei que este vinho é de Monção, mas apetece-me falar e estar em Barcelos, junto da minha infância...e do Paulo Graça Ramos. Foi precisamente em Barcelos, juntamente com as memórias da minha infância, que encontrei o Paulo e este vinho. E foi lá também que encontrei todos os que já partiram, os ausentes. O efeito da memória é precisamente esse: levar-nos aos ausentes para que estejamos com eles, tê-los connosco e trazê-los até nós.

E este belíssimo vinho trouxe-me a felicidade de hoje, dos que comigo partilharam o copo e a memória dos ausentes.

Foi precisamente com este vinho que comecei a Primavera: com os seus aromas mais quentes, fruta "quente" e exótica, frescura típica primaveril, mineralidade, boa acidez a dar relevo, textura estaladiça, suave, frutado e um final longo. Foi precisamente com este vinho e uma vitela assada à minhota que comecei a Primavera.
Todos nós gostamos: os presentes e os ausentes.

Ricardo Soares

domingo, 18 de março de 2018

Esmero tinto 2003

Há uma história que vos quero contar, uma pequena lição de vida, espero que tenham um pouco de paciência:

"Era uma vez um menino apaixonado por patins. Pediu aos pais, implorou, tanto fez que um dia conseguiu. Ficou muito feliz com o par de patins, tão feliz que os guardou muito bem embrulhadinhos dentro da caixa no armário. Não os usava com medo de estragar. O tempo foi passando e os patins guardados. Mais tarde, ele lembra-se e sente saudade deles. Corre para calçá-los e tem uma surpresa: os patins não servem nos seus pés. O menino, acometido de uma profunda tristeza, chora e lamenta os anos perdidos, lamenta o que não vai mais poder recuperar."


Por isso entrego-me cegamente ao impulso que me arrasta e abro este Esmero tinto 2003. Não quero cometer o mesmo erro, de deixar passar o tempo e nada me servir. Estou vivo e quero viver. Hoje...Hoje...Hoje... Não quero lamentos. Quero o dia de hoje. Ainda por cima os vinhos Esmero são a minha paixão Duriense. É um vinho esperto, seivoso, com alma, e tendo alma, entra mais na alma que muitos poemas e canções. Um vinho que vale a pena sonhar e encontrá-lo, desejar e exercê-lo, este Esmero é uma virtude...um vinho que apetece, acalma, requer requinte e cuidados, fala connosco, para encher o copo devagar, com precauções clássicas...

Por favor, não me peçam a prova organoléptica, espero que me entendam. Hoje não. Neste vinho há uma infinitude de possibilidades.
Deixem-nos a sós. Entre marido e mulher não se mete a colher.

Ricardo Soares



quarta-feira, 14 de março de 2018

Grandjó Late Harvest 2012


Sempre que bebo um Grandjó a primeira coisa que me vem à cabeça é o "mel" e algumas lembranças da minha infância intrinsecamente ligadas ao mel. As minhas férias de Natal, Páscoa e Agosto eram passadas na aldeia junto dos meus avós paternos. Lá havia sempre mel caseiro e os fins eram variados: mezinhas, doces, colocar nas feridas e melhor cicatrizar, misturar com bagaço, etc ou comer às colheradas como eu fazia.
E, naquela prateleira, ao lado do mel, havia sempre um Royal ou um Real Companhia Velha, um dos Portos favoritos do meu avô para o mata-bicho matinal...

Pois bem, a Real Companhia Velha proprietária da Quinta do Casal da Granja e de onde provém Grandjó Late Harvest 2012. E é precisamente o aroma e sabor a mel que mais depressa identifico neste Grandjó, em conjunto com uvas passas e notas cítricas, tudo numa doçura e untuosidade que enche o paladar de forma elegante e harmoniosa, com uma acidez refrescante e um final bastante longo.

Fez-me lembrar a infância. Mas não com saudade. Não com saudade porque com este Grandjó sinto que tenho agora mais infância do que enquanto ela decorria.

Ricardo Soares

Valle da Fonte branco 2016


Sempre ouvi dizer: quem te avisa, teu amigo é.

O pior é que não foi só um, foram dois amigos que me avisaram... O primeiro foi o Joel Leite, amigo de longa data (Joel, mais de 20 anos???) que me havia aconselhado "uns vinhos de outra categoria" e o segundo foi o meu amigo Hélder Ferreira que depois de o beber alertou-me logo que "foi das melhores pomadas que já bebeu".

Quando são dois de seguida a aconselhar o melhor que tenho a fazer é tomar primeiro o conselho, e tomado, colocá-lo logo em prática.
Assim foi, adquiri o tinto, o branco e o vinhas velhas do Valle da Fonte.

O branco...que hei-de dizer! Que vinho fantástico. Cheio personalidade, elegante, bastante gastronómico, deambulante frescura e mineralidade, e aromas cítricos, tudo muito redondo e com alguma cremosidade. Obrigatório ter sempre à mão, não deixa ninguém ficar mal à mesa...

Termino como comecei: quem te avisa, teu amigo é.

Ricardo Soares

domingo, 11 de março de 2018

Esmero 2016 Branco


Parafraseando Miguel Torga, diria que este vinho "é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.", in "Diário (1941)".
Confesso que me tenho afastado um pouco dos "Douros", por diversos motivos, mas nos vinhos do Eng. Rui Soares encontro o meu porto seguro. Desde que conheci este vinho, este produtor, que o Douro permanece em toda a sua plenitude dentro de um vinho. Aliás, quando tenho um Esmero ou um Mimo digo sempre, em jeito de brincadeira: "caramba o Rui Soares esmerou-se"...

É um vinho que provém de vinhas com mais de 50 anos, com muita frescura, cítrico, cheio de garra e grande persistência de prova, complexo e aromas intensos a fruta, apetece-me dizer fruta duriense, e floral, elegância e equilíbrio na acidez.

Nunca gostei de citar a bíblia mas neste caso encaixa-se na perfeição: "Tudo quanto está ao teu alcance faze-lo com esmero. Eclesiastes 9,10"... e o Eng. Rui Soares esmerou-se.

Ricardo Soares

segunda-feira, 5 de março de 2018

1000 Curvas 2015 Chardonnay & Alvarinho


Já tinha escrito no Desarrolhar sobre o 1000 Curvas e hoje venho mais uma vez debruçar-me sobre ele, desta vez sobre o 2015.

Este 1000 Curvas 2015 está obviamente diferente do 2014 mas conserva a genética, identidade e génese do anterior. Os traços primordiais conservam-se, "são filhos dos mesmos pais", mas este está mais aprimorado, tem mais madeira, pede comida e tempero e é mais corpulento. Perdoem-me a brincadeira: este 1000 Curvas 2015, ao contrário do 2014, frequentou o ginásio, tem músculo (mais gastronómico, carnes mais temperadas, assados,etc). Mas não em exagero, tem um corpo controlado, aromas cítricos e frutas maduras, numa envolvência fresca e mineral, e um final longo.

Deixou de ser uma novidade, veio para ficar..

Ricardo Soares