sábado, 24 de junho de 2017

Hibernar/Desligar/Reiniciar


Tenho pensado em todas as opções para o meu blog Desarrolhar: Hibernar/Desligar/Reiniciar.

Se repararem tenho estado no modo hibernar.
Não por falta de vinho. Vinho há aqui muito, graças a deus. Do bom e do melhor. Tenho fotos que comprovam os meus deleites. Muitos não divulgo, seria assaltado com toda a certeza absoluta. Não faz parte de mim meter ranço a ninguém.
Não por falta de visitas aos produtores, na semana passada andei a passear tranquilamente por "terras" das Caves de S. João, Bussaco Palace, Adega Viúva Gomes e, como sou tolo, fui a Santarém buscar a "Lisboa" de Hugo Mendes sob um sol arrasador de 40°, etc etc etc. Trouxe a mala do meu "comercial" cheia de coisas boas. Alguns vinhos estou proibido de divulgar.

Mas o porquê do modo hibernar? Enquanto não desligo definitivamente vai ficar assim. A hibernar. Quando tiver assim umas horitas sozinho, e me apetecer, vou publicando alguma coisa.

À partida, continuarei a oferecer a minha amizade a quem quer que ma peça. Seria lamentável, mesmo sendo eu um jovem, que não tivesse aprendido ainda que a verdadeira qualidade dos amigos acaba sempre, cedo ou tarde, por se revelar.

Confesso que também tenho lido por aí muita coisa, como hei-de dizer, ilegível...
Às vezes parece-me triste que alguém publique no Facebook apenas "Vou comer um amendoim". Mais valia optarem pelo silêncio, sinal de que nada mais possuem para partilhar.
Parecem os telejornais ultimamente, só palha e novela, não tardará a que se adiante alguém com esta informação, "Vou soltar um peido."

E com isto me fico,

Vou apreciar os meus vinhos tranquilamente,

Apetece-me dormir.

Ricardo Soares

quinta-feira, 15 de junho de 2017

M.O.B. Lote 3 tinto 2014

Aviso: hoje o texto vai ser muito confuso.

Às vezes há queixas: ou não escrevo nada de jeito, ou escrevo demasiado, ou coisas sem nexo. Uns são gregos, outros troianos, a maioria nem uma coisa nem outra. E hoje não vai ser diferente.
Retomaram-se-me as músicas do vinho, já vos aconteceu? E se eu vos disser que sou como Beethoven: deficiente auditivo. Sim, padecemos do mesmo, se calhar eu com mais sorte do que ele visto que tenho a oportunidade de ouvir os sons com o auxílio de uma prótese auditiva. Mas adiante que as surdezes não são para aqui chamadas. Eu bem avisei que o texto ia ser confuso. Adiante.
Uma tríade, na música, refere-se ao conjunto de 3 notas musicais que estruturam a formação de um acorde. E da Trindade da música harmonia – melodia – ritmo, já ouviram falar? Não tarda muito começo também a falar nas Trindades Espírito-Alma-Corpo. Ah ah ah, eu bem avisei que o meu estado hoje é de paranóia. Vá, mais esta: Pai - Mãe - Filho. Eh eh eh, podia ficar aqui o dia todo a divagar...


Só mais esta: M.O.B.: Moreira, Olazabal, Borges.
Traduzido por miúdos podemos então dizer que MOB é constituído pela Trindade dos produtores de vinho Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Serôdio Borges (Wine & Soul). Que tríade fantástica, este acorde criado pelos MOB, de tão redondinho que estava... entoou uma lindíssima cor granada brilhante, aromas a fruta delicada e uma mineralidade espectacular, algumas nota leves a especiarias finas e um certo pendor balsâmico, acidez moderada, leve e equilibrado.

Albert Einstein, como grande amante da música,  fez um paralelismo entre ela e a Matemática: “A Música, de tão perfeita, é pura como a Matemática; a Matemática, de tão simples, é deslumbrante como a Música. A Música parece uma equação; a equação bem formulada é cheia de harmonia e sonoridade”, direi eu o mesmo acerca deste vinho.

Ricardo Soares

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cockburn's 20 anos (engarrafado em 1988)


Conheci um senhor que guardava o Douro dentro de si e em criança tinha o sonho de ser arrais, como o pai. Contava-me tantas histórias vividas, das vezes que nadava o Douro de margem a margem, de como fez a instrução primária com distinção e depois um padre o quis levar mas o pai não deixou, de como o pai o obrigava a partir amêndoas e o miolo tinha de sair direitinho para vender e ganhar mais uns tostões, dos sapatos emprestados para ir à comunhão e ao exame da 4a classe, de como andava de nagalho à cabeça e todo nu, do rio quando ficava bravo no inverno, das trutas e barbos que apanhava e vendia (ficava só com 3 trutas, uma para o pai e as restantes para dividir entre a mãe e os 6 filhos), da miséria que era naquele tempo, das águias imperiais que planavam lá no alto, da apanha da azeitona, das tempestades assustadoras, das crianças que iam a enterrar e que morriam sem explicação, das vindimas até à última uva e se alguma caísse ao chão levava um estaladão, dos dias e noites que ia com o pai, arrais da região, nos rabelos com mais de 50 pipas da Cockburn's e às escondidas "mata-bichava só um bocadinho daquele Vinho"...


E por isso o vinho do Porto Cockburn's é para mim um lugar de afectos... e este Cockburn's 20 anos foi o renascer de todas as conversas que tive com este senhor. Muito bonito na cor âmbar, tem mesmo uma certa austeridade que lhe dá uma certa graça, muito gordo e aveludado na boca, de textura sedosa e grande delicadeza de aromas e com um final longo e elegante... Sem dúvida um Porto cheio de afectos e murmúrios de conversas já falecidas...

O meu avô guardava o Douro dentro de si e contava-me todas estas e outras histórias, obras de gente simples e humilde, mas quis o destino que o meu avô se empregasse nos comboios a vapor, no percurso diário Porto - Barca d'Alva. E dedicou toda a sua vida a sonhar: - ser arrais dos barcos rabelos!

Ricardo Soares

domingo, 4 de junho de 2017

Quem comenta o que se bebe e o que se escreve?


Quando aqui publico um qualquer texto de vinho, à semelhança de alguns companheiros, e embora eu não seja um teórico, fico sempre na expectativa de que um número significativo dos não sei quantos "amigos" dos grupos vínicos de Facebook interrompa por uns minutos o seu "conforto", e se junte a mim no entusiasmo de pertencermos a uma espécie que não se limita a saltar de árvore em árvore como os macacos, arremessando entre si cocos e bananas (também poderiam ser, como está na moda, o arremesso de revistas).

Engano meu. Apenas um punhado muito reduzido manifesta o seu gosto. Em geral, preferem informar-nos do essencial, isto é, a foto de um vinho caro, um vinho velho, um vintage ou um colheita todo xpto, ou um vinho que vos foi dado mas que juram a pés juntos que o compraram.

Creio que somos o único animal que sabe ler. Uma crónica, um texto, identicamente ao trabalho de um produtor de vinhos, requer muita concentração, trabalho e suor.

E como somos humanos, peço àqueles que não queiram, ou não possam, reflectir sobre o tema, se abstenham de recorrer à ironia, ou à brejeirice.

Senão mais vale falar de amendoins...

Ricardo Soares

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Casal Figueira branco 2006 tradition


Já leram o poema "na hora de pôr a mesa, éramos cinco" in "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto? Aconselho a ler... podem ler aqui .

Enquanto bebia o "Casal Figueira branco 2006 tradition" gorgolejava dentro de mim este poema. Mas no meu caso éramos seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o produtor António Carvalho. Sim, o falecido António Carvalho também esteve presente. Tenho várias testemunhas oculares que confirmam: éramos seis. E bebemos...

Este vinho só faz sentido se for bebido na presença de António Carvalho. Só assim ele se mostra cheio de brilho, límpido, intenso, denso, encorpado, persistente, mineral, boa acidez e volumoso. Com uma personalidade irrepetivelmente única.

E de repente, enquanto escrevo este texto, fiquei com saudades. Deste vinho e do bom anfitrião António Carvalho.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre seis. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o António Carvalho.

Que me perdoe a sua esposa Marta Soares...

Ricardo Soares

domingo, 28 de maio de 2017

Poço do Lobo arinto 1991


Todos os segundos podem ser iguais num relógio mas não para este vinho. Neste Poço do Lobo arinto 1991 o tempo foi o maior legado. Os 26 anos de existência não significaram apenas repouso ou solidão, não foi apenas "passar tempo", atrevo-me a dizer que foram 26 anos de trabalho árduo dentro da garrafa, de construção, de inovação. Na minha opinião a obra ainda não está terminada, só o tempo o dirá.

E sinceramente meus amigos não me apeteceu, nem me apetece agora, perder tempo com detalhes. Desfrutei-o magistralmente. Bebi-o sem tempos mortos, sem análises nem de óculos na ponta do nariz. Devagar...sem tempos...

O tempo deste vinho e o tempo que vivi com este vinho foi bastante precioso. Não vou entrar em mais pormenores, descubram por vocês mesmos... Já dizia Charles Baudelaire, um dos grandes poetas que li incessantemente, "só nos esquecemos do tempo quando o utilizamos."

Ricardo Soares

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Bernard Baudry Chinon Blanc 2014


Alexis Lichine sugeriu que "no que se refere a vinho, recomendo que se bote fora as tabelas de safras e manuais investindo apenas num saca-rolhas. O Vinho conhece-se bebendo!"

Este vinho não pede manuais nem teorias, apenas um saca rolhas, boa companhia e boa gastronomia. Assim foi, na companhia da minha esposa e boa gastronomia pelas mãos de André Antunes e Joana Vieira no restaurante Delicatum. E eis que nos aventuramos num fantástico Chenin Blanc de Chinon. Pureza e profundidade são os adjetivos deste vinho. Com aromas florais e cítricos, toques minerais e suportado por uma boa acidez este vinho encantou a olho nu no copo e no paladar.

Este é sem dúvida um vinho para ser apreciado por si só, sem influências externas nem com teorias. Subjetivamente. Com boa companhia e boa gastronomia. Foi o meu caso. E se tiverem tempo, só se tiverem tempo, nem que seja apenas 1 minuto, fechem os olhos: «On ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux» (Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.), Antoine de Saint-Exupéry

Ricardo Soares