terça-feira, 25 de abril de 2017

Porta dos Cavaleiros Branco 1979


Onde estava o Porta dos Cavaleiros Branco de 1979 na véspera do 25 de Abril?, foi a pergunta que me fiz quando cheguei à garrafeira pessoal.
E eis que, qual PIDE, lá o encontrei escondido no meio de toda a população vínica. Não sei se foi tortura ou não mas coloquei-o no frigorífico umas horitas antes de o consumir, creio que 4 horas dentro da câmara frigorífica foi o suficiente para ele refrescar as ideias e para eu colocar a leitura em dia de dois jornais originais que conservo dos respectivos dias 25 e 26 de Abril de 1974.


Findo este tempo decidi libertá-lo mas no início custou-lhe a falar. Não foi preciso muito, dei-lhe um abanão, sem grande violência, sem sangue, sem dor, sem ódio, e a partir daí chibou-se todo...


No meio dos seus 38 anos exibiu-se num tom dourado, límpido e brilhante. No nariz é aromático, com notas florais e minerais, ligeiras notas meladas, agradável e elegante. Na boca é um vinho com evolução, frescura, untuosidade e alguma persistência, excelente volume e acidez.

No dia 25 de Abril de 2017 derrubei uma garrafa e devolvi a liberdade ao vinho que estava preso há 38 anos.

Ricardo Soares

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Quinta das Bágeiras tinto 1999



O que é que um Quinta das Bágeiras tinto 1999 e uma Bíblia de 1865 têm em comum?

Quem me conhece sabe verdadeiramente a paixão que nutro pelos livros. Desde os meus 14/15 anos que coleciono livros e sou um ávido leitor. Pois bem, uma das relíquias que guardo "religiosamente" é uma bíblia datada de 1865. Não é o exemplar mais valioso que conservo mas para mim, não sendo religioso ou crente, tem a sua dose de piada. Numa das minhas vagas "peregrinações" pela bíblia encontrei um trecho interessante, de uma declaração de Jesus segundo o evangelho São Lucas, que me fez lembrar o Quinta das Bágeiras tinto 1999 que bebi recentemente: - "Ninguém que já bebeu vinho velho, quer o novo; porque diz: O velho é bom. (Lucas 5:39)"

Dito por outras palavras: apesar de naquele dia ter vinhos muito mais novos na mesa não me apetecia mais nada para além do Quinta das Bágeiras tinto 1999. Aquele é que era bom.

Após 18 anos em garrafa eis que o vinho ressuscitou para o copo e cumpriu-se mais uma deliciosa ceia. Com uma cor atijolada ao centro fugindo gradualmente para mogno, revelou aromas a frutos silvestres e uma série de notas florais e secundárias, algum pendor balsâmico e sobressaindo notas de fumo e café. Na boca a intensidade e frescura trazidas pelos taninos sólidos e perfeita acidez e um final longo e elegante.

No fim a profecia cumpriu-se: ELE é que tinha razão.

Parabéns Mário Sérgio Alves Nuno.
Quem sabe, sabe!

Ricardo Soares

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quinta Seara D'Ordens tawny 10 anos


Há Vinhos do Porto que gosto sempre de recordar e de...voltar. Há o ir e voltar, não como as ondas mas sim como um porto destinado ao atracamento de barcos e navios. Por vezes sinto-me um comandante de um qualquer navio e pelo simples facto de voltar novamente "àquele" porto faz com que tenha o dia ganho. Assim é, com o Porto Quinta Seara D'Ordens tawny 10 anos.

Este Porto deveria ser eterno na garrafa e no copo ou, já que estamos na época pascal, deveria ressuscitar sempre que eu quisesse. Eu colocava a mão na garrafa e diria: "ENCHE-TE"...e a garrafa tornava a ficar cheia e eu voltaria a ter o prazer de o beber. Não sendo eu o messias restou-me pôr as pernas ao caminho e comprar outra. Vale mesmo a pena o esforço por este belíssimo tawny de 10 anos que deve ter a mania que tem 20 anos.
Apresenta-se com cor atijolada e no nariz denotam-se frutos secos, com especial enfoque a passas, algumas especiarias e uma determinada madeira. Na boca impressiona pela baixa percepção alcoólica, tem um final persistente, aveludado e bastante elegante.

Apetece mesmo colocar o copo à minha frente e "ENCHE-TE"

Ricardo Soares

sábado, 15 de abril de 2017

Porta dos Cavaleiros tinto colheita 1980


Temos 2 pontos em comum: nascemos no mesmo ano e temos o mesmo gosto. 37 anos e ambos adoramos o Dão.
Este vinho, Porta dos Cavaleiros tinto colheita 1980, dispensa quaisquer palavras e apresentações.
Depois de aberta a garrafa e de sentir os aromas bastante fechados e algum cheiro a mofo, próprio dos seus 37 anos em garrafa, optei por decantar. Cerca de 1 hora depois percebi que o vinho começou a mostrar as suas potencialidades, a revelar os aromas e a mostrar saúde. O tempo passava e a evolução sempre em crescendo. Um vinho ao meu estilo: para se ir bebendo, apreciando lentamente. E assim o fui bebendo: das 14h as 17h30. Foi um bom reencontro, éramos dois amigos da mesma idade que não se viam há bastante tempo. Este Porta dos Cavaleiros contou-me variadíssimas histórias, nunca era a mesma, todas diferentes e todas elas carregadas de experiências e emoções. Como eu o compreendi: embora sempre diferente era a mesma "pessoa" que estava ali à minha frente...
Mas adiante... confissões entre dois companheiros e que não são merecedoras de serem aqui reveladas.
Eu, Ricardo Soares, continuo o mesmo, talvez um pouco mais gordo e com alguns cabelos brancos. E este meu velho amigo apresentou uma cor acastanhada e aromas limpos, suaves, macios e elegantes. Na boca manteve-se fino e com boa estrutura. Estava o mesmo, talvez um pouco mais velho, mas ainda um jovem...

Ricardo Soares

terça-feira, 11 de abril de 2017

Areias Gordas branco 2000



Ora cá está um vinho desconhecido para muitos e quase indescritível para mim. Mesmo ao meu gosto...
Definitivamente não é um vinho feito para "esquisitos". É um vinho com uma identidade e filosofia única, contra corrente e que não cede a modas. Ao mesmo tempo este branco vem provar, tal como outros que andam por aí, que velhos são os trapos. Conta com 17 anos em garrafa mas no copo ficamos com algumas dúvidas sobre se a data no rótulo estará correcta... fez-me lembrar aqueles velhos que vão para o ginásio praticar musculação e que metem qualquer novato debaixo do braço, tudo isso sem whey protein ou qualquer tipo de aminoácidos, apenas com a força da sua raça.
Não é aquele típico branco cheio de frutinha, floreados ou qualquer especiaria que muitos de vós tendes a particularidade de conseguir descrever. Sabe a, tal como diz o produtor, "pois sabe... a vinho!". Não tem aquela típica cor amarelinha toda sorridente e catita mas um loiro experiente e vivaço. Não é um vinho cheio de maneirismos nem delicado, é robusto, encorpado e com estrutura, e uma acidez equilibrada.
Mesmo com esta idade não precisa de muletas para nada e vai a todas: foi com peixe, com carne e até com sobremesa.
Obrigatório ter na garrafeira e... à mão!

Ricardo Soares

domingo, 9 de abril de 2017

Casa Ferreirinha Reserva tinto 1996

O Reserva da Casa Ferreirinha é considerado o irmão gémeo - para mim o irmão gémeo falso - do Barca Velha e são feitos com as mesmas uvas, provenientes de vinhas do Douro Superior de diferentes altitudes. O que determina se o vinho vai ser uma coisa ou outra é o potencial de envelhecimento que revela, sendo que os lotes indicadores de maior resistência, por mais anos, vão para Barca Velha.


O ano deste Reserva da Casa Ferreirinha 1996 ficou marcado no Douro por uma grande produção e por vezes uvas a mais não são sinal de qualidade. Nada mais errado... este vinho esteve muito elegante, fresco e com um corpo admirável. Claro que a garrafa tinha algum depósito mas toda a essência do vinho manteve-se intacta, bastante complexo, delicado e sedutor. Com cor escura no centro e auréola avermelhada esboçou expressivos aromas frutados, minerais e especiados. Na boca apresentou uma bela acidez e taninos elegantes. O final longo, persistente e envolvente.

Sem dúvida um belo vinho para finalizar um excelente jantar no restaurante Delicatum, em Braga, dos "intransponíveis" André Antunes e Joana Vieira.

Ricardo Soares

Porta dos Cavaleiros tinto 82 / Poço do Lobo Arinto 91

Às vezes os domingos servem para organizar umas arrumações ou novos Desarrolhares.


Ricardo Soares

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DORES SIMÕES BAIRRADA GARRAFEIRA TINTO 1994 / DORES SIMÕES BAIRRADA GARRAFEIRA TINTO 1995





Chegaram ontem estes dois vinhos para a minha garrafeira pessoal. Ainda não sei bem qual o destino que lhes irei proporcionar, se beber ou guardar, mas para já vai para o sossego da garrafeira...
Deles deu Dirk Niepoort o seu testemunho:

"Dores Simões poderá um nome desconhecido para a maioria de vós.

Diz ele que passou toda a vida na antiga Junta Nacional dos Vinhos, que mais tarde se tornou o Instituto da Vinha e do Vinho, com Inspector. Nunca deixou de trabalhar nas suas vinhas e de fazer os seus vinhos. Ainda hoje, já reformado, presta algumas pequenas consultorias a pequenos produtores da Bairrada.

Conheci-o Há cerca de 20 anos e representei os seus vinhos durante alguns anos. Sempre tive uma grande paixão pelos seus vinhos. Sempre apreciei e adorei o estilo invulgar dos Dores Simões.

Os vinhos são feitos quase exclusivamente da casta Baga, com o restante a resultar de alguma uva branca que se encontrava no meia das vinhas velhas. Sempre foram feitos com enorme carinho e muito pouca extracção. Sempre existiu uma maior procura pela acidez do que por maturações exageradas. O estágio era normalmente feito em cimento e o resultado são vinhos sempre finos, delicados e muito expressivos, que com os anos crescem em dimensão, mantendo sempre a frescura e jovialidade.

Recentemente em uma prova cega que fiz, coloquei um Dores Simões 1982, a minha ultima garrafa, ao lado de um grande Borgônha e um Barolo. Acabou por ser o grande vinho da noite. No dia seguinte decidi procurar pelo Sr. Dores Simões, e algumas semanas mais tarde, quando o encontrei, consegui trazer até vós mais um pouco da sua história, de um dos grandes representantes do calcário na Bairrada e de um grande respeitador dos grandes "Terroirs" Portugueses.

Espero ainda aprender muito com o Sr. Dores Simões e com os seus vinhos que voltei a encontrar. Espero que sigam a minha recomendação sincera de que devem beber estes vinhos, que poderão mudar a vossa percepção para sempre. Bebam-nos em copos largos, tipo Borgonha.

Dirk Niepoort"

Ricardo Soares

Arte da tanoaria


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Álvaro Castro Dão tinto 2011



Muitos falam da elegância dos vinhos do Dão mas eu como consumidor não vejo grandes estratégias capazes de ombrear com outras regiões e sinto algumas dificuldades em adquirir vinhos de determinados produtores desta região.
O consumidor que paga é diferente daquele consumidor que não paga. Normalmente, no mercado, o consumidor que paga e procura é aquele que mais valoriza o produto. Que premissa tão simples e nada difícil de entender: paga logo valoriza. Ao contrário de muitos que se gabam em expor nos fóruns e blogs os seus desarrolhares que lhes foram oferecidos pelos produtores, na minha garrafeira todas as garrafas têm o peso dos euros.  E por isso assumo a responsabilidade das minhas provas e valorizações subjectivas.

Mas vamos ao que interessa: Álvaro Castro Dão 2011.
No ponto. Não encontro melhor explicação para este belíssimo vinho. Estava no ponto. Com um requinte vibrante, elegante, sublime, refinado e preciso. Dos melhores vinhos tintos que já bebi nos últimos tempos.
Esboçou uma cor vermelho vivo, um aroma intenso e fino, notas de fruta madura. Taninos bem polidos e um final longo, elegante e apelativo. Porra, estava mesmo no ponto.

Vinho bebido no Delicatum, em Braga

Ricardo Soares

domingo, 2 de abril de 2017

Quinta do Cardo Síria 2015


É daqueles vinhos que apetece, sem muitas demoras nem conversas. Todos sabemos que a Beira Interior é bastante esquecida mas atrevo-me a dizer que este vinho não me sairá tão cedo da memória e será bastante lembrado. Sorte a minha que tenho mais na garrafeira. É daqueles vinhos que digo: "comprem às paletes".

Este Quinta do Cardo Síria 2015 apresentou-se num amarelo claro com aromas cítricos e florais. Na boca mostrou uma acidez exuberante com um ligeiro vegetal e acompanhado por um perfil mineral e pleno de frescura. Tem um final engraçado, com boa persistência e um travo ligeiramente e positivamente amargo. Um vinho com uma muito boa relação qualidade preço.

Nem sempre o caro é bom mas neste Cardo o Cardo é bom.

Ricardo Soares