segunda-feira, 29 de maio de 2017

Casal Figueira branco 2006 tradition


Já leram o poema "na hora de pôr a mesa, éramos cinco" in "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto? Aconselho a ler... podem ler aqui .

Enquanto bebia o "Casal Figueira branco 2006 tradition" gorgolejava dentro de mim este poema. Mas no meu caso éramos seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o produtor António Carvalho. Sim, o falecido António Carvalho também esteve presente. Tenho várias testemunhas oculares que confirmam: éramos seis. E bebemos...

Este vinho só faz sentido se for bebido na presença de António Carvalho. Só assim ele se mostra cheio de brilho, límpido, intenso, denso, encorpado, persistente, mineral, boa acidez e volumoso. Com uma personalidade irrepetivelmente única.

E de repente, enquanto escrevo este texto, fiquei com saudades. Deste vinho e do bom anfitrião António Carvalho.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre seis. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o António Carvalho.

Que me perdoe a sua esposa Marta Soares...

Ricardo Soares

domingo, 28 de maio de 2017

Poço do Lobo arinto 1991


Todos os segundos podem ser iguais num relógio mas não para este vinho. Neste Poço do Lobo arinto 1991 o tempo foi o maior legado. Os 26 anos de existência não significaram apenas repouso ou solidão, não foi apenas "passar tempo", atrevo-me a dizer que foram 26 anos de trabalho árduo dentro da garrafa, de construção, de inovação. Na minha opinião a obra ainda não está terminada, só o tempo o dirá.

E sinceramente meus amigos não me apeteceu, nem me apetece agora, perder tempo com detalhes. Desfrutei-o magistralmente. Bebi-o sem tempos mortos, sem análises nem de óculos na ponta do nariz. Devagar...sem tempos...

O tempo deste vinho e o tempo que vivi com este vinho foi bastante precioso. Não vou entrar em mais pormenores, descubram por vocês mesmos... Já dizia Charles Baudelaire, um dos grandes poetas que li incessantemente, "só nos esquecemos do tempo quando o utilizamos."

Ricardo Soares

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Bernard Baudry Chinon Blanc 2014


Alexis Lichine sugeriu que "no que se refere a vinho, recomendo que se bote fora as tabelas de safras e manuais investindo apenas num saca-rolhas. O Vinho conhece-se bebendo!"

Este vinho não pede manuais nem teorias, apenas um saca rolhas, boa companhia e boa gastronomia. Assim foi, na companhia da minha esposa e boa gastronomia pelas mãos de André Antunes e Joana Vieira no restaurante Delicatum. E eis que nos aventuramos num fantástico Chenin Blanc de Chinon. Pureza e profundidade são os adjetivos deste vinho. Com aromas florais e cítricos, toques minerais e suportado por uma boa acidez este vinho encantou a olho nu no copo e no paladar.

Este é sem dúvida um vinho para ser apreciado por si só, sem influências externas nem com teorias. Subjetivamente. Com boa companhia e boa gastronomia. Foi o meu caso. E se tiverem tempo, só se tiverem tempo, nem que seja apenas 1 minuto, fechem os olhos: «On ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux» (Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.), Antoine de Saint-Exupéry

Ricardo Soares

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Vicentino Sauvignon Blanc 2014


Há vinhos que nos surpreendem por serem diferentes. Provei pela primeira vez este Vicentino Sauvignon Blanc num evento e as primeiras impressões não foram as melhores. Contudo, e porque por vezes tiramos ideias erradas neste tipo de eventos e feiras, devido às variadas provas vínicas e outros factores, decidi prová-lo novamente.


Acompanhou bem uns chocos crocantes, uns croquetes de choco com tinta preta e um bacalhau, no restaurante Delicatum, em Braga. A solo também é um vinho que cumpre bem a sua função.
No geral a prova foi positiva e que se refletiu num perfil vegetal e a fruta tropical, com boa acidez e frescura, e um leve toque salino. Chamem-me doido, e não fui o único a achar o mesmo, senti em toda a prova um leve toque a... marisco.
Aconselho mas como disse no início desta crónica, e porque já tive duas sensações com ele, é um vinho que creio ser "diferente" da generalidade dos Sauvignon Blanc que encontramos no mercado e que deve ser bebido e analisado per si.

Ricardo Soares

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Quinta Seara D'Ordens reserva tinto 2007


Bebi este Quinta Seara D'Ordens reserva tinto 2007 numa altura em que Portugal se preparava para a consagração de Salvador Sobral como vencedor do Festival Eurovisão da Canção 2017.


Enquanto a música pairava no ar este belíssimo Quinta Seara D'Ordens reserva tinto 2007 fez a sua magia e extasiou-me por completo. Mas que Douro...já tinha saudades de beber um duriense que me deixasse plenamente satisfeito. Enquanto o bebia a canção surgiu-me assim:

Beber pelos dois

Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que me escondi para beber
Um tinto Seara D'Ordens de 2007
Extasiado e sem gota para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que não regresses, deixa-me a beber
Eu sei que não se bebe sozinho
Talvez, devagarinho, um dia possas beber

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que não regresses, deixa-me a beber
Eu sei que não se bebe sozinho
Talvez, devagarinho, um dia possas beber

Com bom envelhecimento e cor rubi
Aromas a fruta madura e notas florais
Elegância, macio, profundo e lacrimoso
O meu coração pode beber pelos dois



Ricardo Soares

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Adega Viúva Gomes tinto 1999


Há uns tempos contaram-me uma pequena piada que no meu caso se adapta perfeitamente a este vinho Colares da Adega Viúva Gomes 1999:

"Um produtor de vinhos convida um amigo para jantar e provar o vinho da última colheita.
O amigo, durante o jantar, leva o copo à boca, dá um gole e faz uma careta.
O produtor apercebendo da reacção do amigo, diz-lhe:
- eh pá asseguro-te que esta pinga é excelente para acompanhar qualquer comida!
Este, amigo da bebida como era, responde:
- Talvez, mas, neste caso, prefiro a pinga sozinha…"


Não quero, com esta piada, afirmar que não é um vinho gastronómico, muito pelo contrário, mas também é um vinho perfeito para beber a solo. Cada gole é um gole diferente e cada minuto é outro tempo...
Perdoem-me mas não me vou debruçar sobre a sua análise porque já relatei neste blog algumas provas da Adega Viúva Gomes e além disso é demais sabido que nutro uma especial preferência e apetência por todos os seus vinhos, tintos e brancos.

Chamo-lhe um figo!

Ricardo Soares

terça-feira, 9 de maio de 2017

Quinta da Pacheca reserva vinhas velhas tinto 2011


Começo por falar neste Quinta da Pacheca reserva vinhas velhas 2011 com uma adivinha:

"Qual é a coisa qual é ela,
Para casamentos e baptizados
a mim me chamarão,
para coisas de cozinha,
falem lá com meu irmão.
O que é?"

A resposta a esta adivinha define a minha prova. Confesso que não foi a melhor experiência, talvez por minha culpa, do vinho, da temperatura, das condições a que possivelmente esteve sujeito, do copo, do prato que o acompanhou... sei lá, variadíssimos factores podem ter contribuído para tal. Bebi no máximo 1 copo e meio...
Até considero que este Quinta da Pacheca não é mau de todo mas ou não correspondeu às minhas expectativas ou não está aliado ao meu perfil de vinhos.
Apresentou-se com um tom rubi carregado, nariz discreto, marcado pela fruta vermelha madura e a boca marcada por alguma frescura e taninos vivos.
No entanto achei o vinho bastante robusto, cheio, com o álcool a sobressair e na totalidade da prova sempre os mesmos aromas.

Éramos dois a beber e dos 750 ml de vinho bebeu-se aproximadamente 300 ml.

Ricardo Soares

P.S.: para quem não souber a resposta à adivinha aqui fica: - "vinho e vinagre"

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Areias Gordas rosé 2014


Tenho quase a certeza que Tomaz Vieira da Cruz leu o "conselho" de Herberto Hélder:

"Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortanto e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam." Herberto Helder, in Photomaton & Vox

Perante a panóplia de vinhos existentes no mercado, com todos os sabores e mais alguns, "sinto" que hoje o vinho é objecto de constantes interferências, modificações e moldagens, consoante as circunstâncias e modas.

E contrariamente a tudo isso, na minha opinião, eis um vinho que é vinho: Areias Gordas. Seja ele qual for: branco, tinto ou rosé.
O vinho que agora vos apresento, o Areias Gordas Rosé 2014, surge-me inteiro, sem cortes, desmaquilhado, com as suas qualidades e defeitos, completamente despido e nu...totalmente diferente de tudo e de todos os rosés que já bebi e vejo por aí. Estamos perante um rosé delicado, elegante, desmistificado e longevo.
Vinificado com Tinto Cão, mostrou-se no copo com uma cor ténue salmonada (a foto, pela má qualidade, não mostra totalmente a cor), de aromas delicados e florais, num perfeito equilíbrio entre acidez e estrutura. É um Rosé seco, acompanha muito bem refeições mais ligeiras e perfeito para beber a solo.


Ainda bem que abasteci a garrafeira com Areias Gordas tinto, branco e rosé...mas temo que não durem muito.

Ricardo Soares

sábado, 6 de maio de 2017

Mateus Sparkling Rosé Brut Baga and Shiraz


Não me considerem crente nem "creiam" que estou neste momento a gozar mas digam todos comigo:

"Confesso a Deus Todo-Poderoso
e a vós, irmãos
que pequei muitas vezes
por pensamentos, palavras,
atos e omissões,
por minha culpa,
minha tão grande culpa...
..."

Não podemos ser só nós a escolher, a decidir e a "harmonizar". Com esta história, de estarmos constantemente a pensar em vinho, qual a próxima garrafa a abrir neste ou naquele almoço/jantar e a próxima garrafa a comprar, esquecemo-nos que os outros também têm vontades, impulsos e ideias. Por vezes o nosso modo de pensar, de falar e agir faz com que os outros se inibam de dar as suas próprias ideias. Sentimo-nos o "macho Alpha" vínico e esquecemo-nos que os outros também querem participar assumindo a liderança, liberdade e decisão na escolha do vinho.

Resumindo e concluindo esta minha pequena dissertação: - dei a "liberdade" à minha esposa pela escolha e compra de um espumante para bebermos e a escolha recaiu no Mateus Sparkling Rosé Brut Baga and Shiraz.

Confesso que me assustei, fiquei aterrado, petrificado, impávido, completamente siderado e descrente. Mas lá pensei que poderia não ser assim tão mau e...apresentou-se com uma cor rosada e salmonada, de inúmeras bolhas finas a dar alguma persistência e delicadeza, exibiu-se com notas florais e frutas primaveris, com bastante frescura e notória acidez. O final em si foi aromático e delicado.

É óbvio que o meu perfil de espumantes é outro mas tenho de dar a mão à palmatória e confessar que foi um serão agradável...

Ricardo Soares

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Quinta de S. Francisco branco 2012


Já vos aconteceu beber o desconhecido e ser uma das experiências mais fascinantes que já beberam?

Desarrolhei este branco da Quinta de S. Francisco de 2012, oriundo de Óbidos, e posso afirmar que é, para mim, uma aposta segura no reino dos vinhos brancos.

Para o encontrar é muito fácil: "normalmente" estes vinhos estão à venda nas grandes superfícies e sempre nas prateleiras de baixo, nunca ao nível dos olhos nem com painéis publicitários. Mas olhem com olhos de ver porque "normalmente" só há duas ou três garrafitas no máximo, sendo que só uma está visível e as restantes estão a fazer fila. Outra coisa, não perguntem ao funcionário se há o vinho porque o mais certo é não conhecer e terão como resposta que "está esgotado". Por último e não menos importante, não desistam de encontrar este vinho, ele está lá, só precisam de acreditar e nunca desistir de procurar, a esperança é a última a morrer, abram os olhos e não se iludam com a merda das "promoções" à vossa volta.
Já dizia linguarudo do Albert Einstein que "a percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada".

Mas...e este Quinta de S. Francisco branco de 2012?
Feito com Vital, Fernão Pires e Arinto revelou-se com uma cor citrina e bom impacto olfativo, de aromas frutados e delicados, notas de limão e maçã. Na boca apresentou-se ligeiramente acidulo e uma frescura notável. Na minha opinião este vinho pode não ter grande "alarido" ou ousadias, mas teve uma boa textura e boa aptidão gastronómica.

Pego novamente na citação do Einstein e faço uma ligeira modificação, "o homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem beber nada".

Ricardo Soares

Bebo, logo critico.


Se me perguntarem neste momento com qual caractere do teclado me identifico mais respondo que é o #

Significa: Preso; amordaçado; aquele que se encolhe como um cão; agrilhoado; censurado; aquele que se cala; lambe botas; aquele que não confia em si próprio; aquele que deve; aquele que não tem liberdade de escolha; aquele que não se assume; vive com constante medo de represálias, etc etc etc.

Digo isso não porque o sinta mas pelo que a maioria sente, pelo que presencio e pelo que vou lendo.

Quando não falamos de marcas reconhecidas no mercado há sempre pouca vontade de mostrar e afirmar as escolhas. Ao passarmos os olhos pelas revistas, prateleiras, blogs, grupos de Facebook e Instagram, grupos de provas, etc parece que a "carta" de vinhos é sempre a mesma. Parece que só existem aqueles vinhos e o resto é zurrapa. A censura colectiva, aliada ao (ou fruto do) marketing, determina as escolhas e caminhos a seguir.

Nos tempos de hoje qualquer bebedor escreve críticas. Até o mais anónimo dos bebedores pode escrever um livro ou criar e editar uma revista. São aqueles a quem, faço eu o paralelismo, Ortega y Gasset diagnostica como a "rebelião das massas".

O autor esboça no aparecimento destas massas em espaços que estavam antes reservados às elites, ou pelo menos a grupos com uma certa exigência - e neste caso vai desde as provas aos eventos, das revistas à rua. O que verificamos hoje é que essa "rebelião das massas" tem alastrado e as redes sociais potenciam isso. Tendo aspetos positivos até porque somos seres livres e pensantes, também vieram permitir que qualquer um possa escrever e publicar, difundir a sua opinião mesmo que esta não tenha nenhum fundamento.
Essa rebelião deve assustar"quem sabe e percebe do assunto". E talvez por isso não conseguem muitas vezes confrontar-se com o facto de a opinião dos bebedores assumir o mesmo estatuto de opiniões especializadas ou até críticas, e em termos públicos surgirem niveladas.
Atrevo-me a dizer que qualquer crítico, enólogo, produtor, etc se inibe de ter uma opinião pública porque receia que surja desalinhada da corrente mainstream, sujeitando-se a que haja um fenómeno viral em que o desanquem à pancada.

Claro que também há outros factores, que um dia poderei "filosofar", por exemplo:
- de pressões por parte de "seres" superiores para quem estabelece a crítica;
- de críticas por interesse.

Por hoje fico-me por aqui que isto de "pensar" também cansa. Não sem antes fazer uma pergunta e na qual não irei pensar na resposta: - Farei parte da rebelião das massas?

Ricardo Soares